A SEPARAÇÃO (1o capítulo de 5)

 O celular tocou e ele já franziu a testa impaciente ao ver o número da esposa no visor. - “Oi, ainda vai demorar?”. - “Estou trabalhando, daqui a pouco vou embora. Alguma coisa?” - “Não... Aliás, sim... Queria saber que horas você virá, porque quero conversar uma coisa com você”. - “Algum problema com alguém da família?” - “Ah, não, está tudo ótimo com todos. Precisamos conversar sobre a gente”. - “Puta que pariu, uma DR para fechar um dia corrido era tudo que precisava... Daqui a pouco estou indo”. - “Tchau”. Ele perdeu o ânimo para trabalhar. O telefonema da esposa dizendo que queria conversar tinha acabado com o resto de noite dele. Não tinha mais saco para aquelas DRs intermináveis que não levavam a nada. “Onde você está? O que está fazendo? Você só faz trabalhar! Não para mais em casa! Vai demorar?” Saco! Toda liberdade que tinha durante o namoro tinha acabado com o casamento. Até passou o primeiro ano procurando ser o marido perfeito, só indo do trabalho para casa de casa para o trabalho. Sua vida era empresa e família. Mas a rotina tediosa chegou ao limite e nos dois últimos anos vinha priorizando sua felicidade. Futebol, terças e sábados, academia sempre que dava e clube do pôquer todas as quintas com os amigos. Sem contar as saídas quando rolava uma viagem de trabalho. Como ainda não tinham filhos, se sentia um pouco mais livre para fazer as coisas que mais gostava, que coincidentemente eram sem a presença de sua mulher. A namorada divertida e bem humorada há muito tinha deixado de ser uma boa companheira. Cobranças, cobranças e cobranças. A mulher pela qual se apaixonou tinha se transformado numa esposa chata intragável... Desligou o computador, colocou alguns documentos na gaveta e partiu para casa. Sair do trabalho mais tarde tinha a vantagem de pegar o trânsito um pouco mais tranquilo, chegando mais rapidamente. O que não era uma grande vantagem naquela noite. Ao subir o elevador, já estava irritado e pretendia ser objetivo e não deixar aquela conversa se estender demais. Estava puto por não poder ir à academia. Abriu a porta, encontrou sua esposa sentada no sofá e não resistiu ao tom irônico: “o que foi dessa vez, deixei a cueca no chão ou a tampa do vaso levantada?” Ela suspirou com paciência e simplesmente disse: “eu estou indo embora.”

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

POR QUE NÃO TENHO (TANTA) RAIVA DE LULA?

UMA TRAGÉDIA CHAMADA LULA

IMPERTINÊNCIA