46. O Movimento

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Hoje quero um texto leve. Que lave a alma. Com calma.

Cores brandas. Tons pastéis. Areia da praia, raiar do dia.

Hoje quero descansar. A mente. Inadiavelmente.

Sem citar as coisas que quero deixar para trás. Ou para amanhã.

Sequer, imaginar.

Hoje quero cafuné, massagem no pé.

Quero o início da manhã, o fim da tarde e a madrugada.

Hoje quero o movimento de fechar o livro para pegar o copo d’água no criado mudo.

Mudo.


Vejo-me na cama à noite. Depois de lavar a louça do lanche noturno e desligar a televisão. Depois de ter trancado a porta e fechado as janelas. Depois de ter tomado banho, escovado os dentes e colocado a bermuda de dormir. Depois de checar as últimas mensagens, postagens, bobagens colocando o celular para carregar.

Estirado na cama, no silêncio da noite, fixo-me em apenas um movimento: o singelo movimento de beber água enquanto leio o livro da vez.

O copo d’àgua no criado mudo deve estar bem cheio, quase transbordando. Não se sabe exatamente quando a leitura será vencida pelo sono. É preciso um copo cheio para dar conta de todos os goles possíveis até adormecer, deixando uma reserva para uma eventual sede notívaga. E uma vez deitado na cama, levantar-se para ir à cozinha ou sob qualquer outro pretexto, não é uma possibilidade. Nem pensar. Só em caso de risco grave de saúde de um ente muito querido. Atenção: o risco deve ser grave e o ente muito querido.

Deitado de barriga para cima, com o livro às mãos, a cabeça no travesseiro e o copo cheio de água no criado mudo, o cenário está pronto. A versão do paraíso em dias de cotidiano urbano insano.

À página 361 de um total de 443, concluo mais um capítulo. Ainda não será nessa sessão que chegarei ao final do livro. As leituras noturnas tendem a ser curtas, de 10 a 30 páginas por noite, a depender da relação ”sono x empolgação” com a trama. Com tanta coisa para se fazer durante o dia de trabalho da semana e com tantas outras coisas para se fazer no fim de semana, até me ressinto de reservar à leitura um momento tão estreito. Nobre, mas estreito.

Mais uma vez recorro à máxima de valorizar o que posso, e não o que quero. Se é o tempo possível, que é bom que ele existe.

Ao final do capítulo decido que há energia para mais um. É nesse momento que pratico o movimento.

Coloco a mão esquerda na parte superior do livro, postando os dedos médio, anelar e “mindinho” na face do fundo do objeto. O polegar escora a capa frontal, enquanto, muito sagazmente, o indicador se coloca no interior do livro, justamente na página onde a leitura foi suspensa, para não correr o risco de perde-la.

Nesse instante, solto a mão direita, deixando o livro seguro exclusivamente pela mão esquerda, apoiando-o no meu peito. A mão direita desloca-se em direção ao criado mudo, alcançando rapidamente o copo. Com cuidado, pego o copo e o trago na direção do meu rosto. O movimento é sutil, já que nos primeiros goles, há o risco de derramar água, já que o copo ainda está muito cheio. E há de se evitar qualquer incidente que demande a saída da cama, que como salientado acima, só ocorrerá diante de eventos extremos.

Com o copo defronte à boca, chega-se ao momento mais delicado. A aerodinâmica e a gravidade não favorecem o ato de se beber água deitado. É preciso uma certa dose de perícia.

O livro, de pé, na mão esquerda, deixa o apoio do peito e deita-se sobre a barriga, com a mesma disposição dos dedos para manter a página marcada. A cabeça eleva-se levemente para a frente, formando um angulo de quase 90 graus com o tórax. Encosta-se o copo totalmente na vertical na boca. Fazer qualquer inclinação no copo antes do toca-lo na boca é quase certeza de derramar.

Encostando o copo verticalmente na boca, temos a segurança agora de que podemos inclina-lo sutilmente, para que a água toque os lábios e por fim chegue ao seu destino.

Então, devolve-se o copo ao criado mudo e passa-se à leitura de mais um capítulo, repetindo-se o gesto, tantos quantos forem os capítulos a serem lidos até se chegar ao limite do sono. A partir daí, em vez do dedo indicador, será o marcador de página quem fará o papel de indicar o local exato para retomada da leitura no dia seguinte, no momento em que o livro é deixado no criado mudo em definitivo.

Finalmente, toma-se o último gole de água, apaga-se a luz do quarto e ignora-se a incipiente vontade de fazer xixi, mantendo o compromisso de não deixar a posição, salvo raríssimas exceções.

Sds,

Hugo 

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