32. Navegar é...



Aventurar-se é necessário
Além da zona de conforto
O acaso é o itinerário
A partir do cais do porto

Bússolas e GPS
Nunca vão dizer ao certo
Tudo aquilo que acontece
Ao cruzar o mar aberto

Mas se ficar é condição
Que já não fascina mais
Não há outra opção
A não ser correr atrás

Buscando o que faz sentido
Além da linha do horizonte
Enfrenta o desconhecido
Aquele que constrói a ponte

O perigo não é exclusivo
Para quem se lança ao mar
Se viver é impreciso
É preciso navegar



“Navegar é preciso, viver não é preciso”.

Essa frase sempre me intrigou bastante, desde que me entendo por gente. Qual o sentido da sentença? O que o autor quis dizer, já que “preciso” pode ter significados diferentes? Qual sentido faz mais sentido para mim, como leitor?

Dei uma rápida caminhada ao dicionário para descobrir se “preciso” aceitava mais significados do que os que eu já compreendia:

Preciso
1.Necessário; urgente.
2.Exato, certo, definido.
3. Claro, categórico, terminante:
4. Resumido, lacônico:

Entendo que, diferença mesmo, há entre os significados “1” e “2, 3 e 4”, já que exato, claro, e resumido, carregam mais ou menos o mesmo sentido. Diferentemente de “necessário”.

Então, partindo do pressuposto que “preciso” pode ser ou “necessário” ou “exato”, teríamos quatro combinações de frases possíveis:

“Navegar é exato, viver não é exato”;
“Navegar é exato, viver não é necessário”;
“Navegar é necessário, viver não é necessário”;
“Navegar é necessário, viver não é exato”.

Nesse momento, naveguei, ou melhor, visitei o “Google”, outro pai dos burros contemporâneo, para ver o que havia nele sobre a frase.

Atendo-me apenas aos três primeiros resultados, me surpreendi ao descobrir que a frase não tem origem no poema de Fernando Pessoa; sua origem remonta a um general romano que queria estimular seus marinheiros receosos a encararem os riscos da navegação: “Navigare necesse, vivere non est necesse.”

A literalidade da frase em seu idioma original, latim, induz que seu significado primitivo seria “Navegar é necessário, viver não é necessário”; Ou seja, navegar seria mais necessário do que viver. Realmente um ótimo slogan para incentivar marinheiros temerosos a cair no mar, mas não gosto muito desse conceito, apesar de ser o original.

Atrás de um sentido que faça mais sentido para mim, pensei em enxergar a palavra “navegar” como uma metáfora para algo mais instigante, como se “aventurar”, “se arriscar”. Mesmo com essa acepção de “navegar”, a frase ainda não me encanta: “aventurar-se é necessário, viver não é necessário”. Não, não gostei.

Partindo para analisar as outras possibilidades de sentidos mencionadas acima, li em algum desses sites que “estudiosos” acreditariam que o real sentido da frase seria “Navegar é exato, viver não é exato”; Este sentido adviria de que a navegação seria uma ciência exata, matemática, guiada por coordenadas e referências astrológicas definidas, enquanto a “vida” seria uma completa incerteza.

Também não vejo muito sentido nesse sentido. Até porque, por mais que a navegação seja guiada por instrumentos exatos como bússolas, mapas, GPS, computadores de bordo, ainda acho que o fato de se jogar ao mar está mais ligado ao risco da aventura e do acaso, do que à precisão matemática em si.

Descartando esse significado, vejo ainda menos nexo no seguinte: “Navegar é exato, viver não é necessário”; Além de não gostar de compreender “navegar” como algo exato, também não funciona, para mim, pensar em “viver” como algo desnecessário.

Entendo o ato de “viver” como uma ação mais do que necessária, uma única opção, recheada de sentidos explícitos e obscuros, que vamos desvendando e amadurecendo no decorrer da vida.

Pois bem, dentre os significados que compreendo possíveis e que propus, o que mais me seduz seria “Navegar é necessário, viver não é exato”.

Compreendendo aqui navegar como se aventurar, se arriscar, a frase ganha um sentido mais de acordo com o que penso da vida. “Aventurar-se é necessário, já que viver não é exato”.

Muitas vezes nos acomodamos em zonas de conforto que nos desestimulam a nos arriscarmos a saltos maiores, a buscas importantes. Quase sempre só acordamos para nossa acomodação quando o porto seguro afunda e nos vemos sem bote de salvação.

Quantas pessoas não mudam radicalmente sua forma de ver a vida e passam a buscar de forma obstinada seus sonhos mais profundos depois que são acometidas por uma doença, escapam de um acidente quase fatal ou têm uma desilusão amorosa inesperada que transforma uma aparente vida cor de rosa em escuridão? Quantas pessoas não entram em depressão quando percebem que tudo aquilo que forjava a sensação de perfeição, carece de um sentido maior?

Esses sentidos estão dentro de nós, e recebemos dicas deles constantemente nos momentos em que estamos mais sensíveis.

Com a consciência de que bússolas, portos e raízes são importantes e necessários, acredito que temos e podemos arriscar um pouco mais no sentido de lutar pelo que faz a nossa vida ter sentido.

Arriscar-se é necessário, viver é impreciso.
 
Sds,

Hugo


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