24. Essência

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Em cada escolha que fazemos
Razões óbvias e inconscientes
O que vale mais, o que vale menos
O que anda motivando a gente?

Ao optar pela profissão
O que é mesmo que queria escolher?
Estabilidade, remuneração?
Valem a pena sem ter prazer?

E entre este ou aquele vestido
O que mais conta para decidir
Caimento, preço, design, tecido?
Ou a marca que ele está a exibir

Toda opção é livre, é legítima
Quem é que pode julgar sua razão?
Mas desvendar suas causas mais íntimas
Pode levá-lo à melhor decisão

Tenho cada vez mais procurado entender motivos por trás de ações e o sentido de cada escolha.

Percebo que frequentemente nos perdemos em meio a tantos estímulos e expectativas que acabamos por tomar atitudes impulsivas (às vezes aparentemente e superficialmente bem pensadas), que no fim das contas só nos faz perder tempo e dinheiro sem agregar nada relevante para nossas vidas.

Exemplificando fica melhor de entender.

A questão da vaidade estética, por exemplo. É natural e legítimo cuidarmos para nos sentirmos cada vez mais bonitos esteticamente. Mas às vezes exageramos nessa busca pela perfeição visual tomando atitudes que muitas vezes vão de encontro ao sentido de ser bonito esteticamente.

Pois entendo que a beleza estética quer traduzir atributos como boa saúde e paz de espírito. Não deve ser a toa que uma pessoa sorrindo é muito mais bonita de se ver do que chorando. Porém, a busca pela beleza física comumente deságua em ações muito pouco saudáveis, tanto pro corpo quanto pra mente, como o uso de anabolizantes, o exagero no desempenho de atividades físicas e as cada vez mais comuns intervenções cirúrgicas.

Conheço meninas de 24 anos bonitas, saudáveis, praticantes de atividades físicas regulares, que já fizeram mais de duas lipoaspirações. Vez por outra ficamos sabendo que uma celebridade qualquer retirou uma costela para tornar mais curvilínea sua silhueta.

Outro dia fiquei pasmo com outra notícia: está virando moda mulheres arrancarem o dedo mínimo dos pés para poderem usar certos sapatos. É o cúmulo da inversão de valores, a meu ver. Fico imaginando o cara que produziu estes sapatos. Será que ele percebe o quanto é incompetente um fazedor de um produto que acarreta a automutilação do usuário para utilizá-lo? Sim, pois se esta atitude parece absurda hoje, não estranharia muito se ela virar uma prática relativamente comum. Mal comparando: não seria também um absurdo, mulheres se submeterem a quatro, cinco horas de tortura em cima de saltos altos em festas formais? Não é possível usar um sapato elegante e confortável? A busca pela boa apresentação visual, que na verdade quer ilustrar beleza e bem estar, não entra em contradição quando essa busca enseja horas de dor física?

Mas tudo bem, nesse último exemplo. Mulheres são muito mais fortes que homens para suportar dores físicas. Lembrei agora da depilação à cera quente. Melhor trocar de assunto.

Então, mudando de foco, mas mantendo o mesmo olhar, observo também nossas escolhas em relação a bens de consumo que desejamos.

Ao desejar comprar qualquer coisa, tenho procurado entender a necessidade dessa aquisição e o que está por trás da escolha daquele produto específico.

Tento, cada vez mais, me livrar da tentação de, através de bens de consumo, corresponder à expectativa de terceiros. E isso é uma tentação bem freqüente na sociedade que vivemos.

Na compra de um carro, por exemplo, tento me livrar de qualquer sentimento que me faça escolher o veículo que não seja conforto, segurança, beleza estética (sim, claro, porque não?), eficiência, economia. Sem hipocrisia, é preciso admitir que muitas vezes escolhemos o carro que vamos usar para representar ou para forjar nosso “sucesso” financeiro. E acabamos por escolher carros mais caros do que poderíamos, maiores do precisávamos e menos econômicos do que gostaríamos.

O mesmo acontece com o vestuário. Já perceberam o quanto somos idiotas de exibirmos com orgulho as marcas das roupas que compramos? Viramos outdoors ambulantes fazendo propaganda de graça para as marcas que vestimos. Somos tão inseguros quanto nossas qualidades como seres humanos que pagamos caro para exibir uma marca que pode traduzir um certo status que nos valorize como pessoa, quando na verdade deveríamos no sentir pessoas interessantes o bastante para que aquela marca desejasse que a gente a exibisse por aí! Ela deveria me pagar para estampar sua marca no meu corpo e não o contrário.

É claro que não se defende aqui que roupa é para proteger do frio ou as partes íntimas. Na essência do sentido de escolher o que vestir, a qualidade, o corte, o caimento, a beleza da peça de vestuário tem que ser levadas em conta. O que se questiona é a exibição da marca da roupa e o papel de atração que essa exibição provoca em nós quando vamos escolher o que comprar.

E esse raciocínio de procurar a essência e o sentido de cada escolha que fazemos pode recair sobre qualquer tipo de escolha.

Desde a praia paradisíaca que escolhemos para passar férias tranqüilas (às vezes escolhendo lugares completamente contrários ao desejo de tranquildade, só para corresponder à moda do momento) até decisões ligadas a passos que damos na nossa carreira profissional. Pois se ganhar bem significa na essência a busca por uma vida segura, tranqüila, para um melhor bem estar, por que frequentemente escolhemos condições de trabalho que, pela promessa de uma maior recompensa financeira bruta, acaba por nos tirar a segurança, a tranqüilidade e a qualidade de vida?

Voltando ao sentido inicial do texto, esclareço não se prega uma vida desapegada de desejos fúteis ou prazeres profanos. Apenas questiono se muitas vezes em meio a essa confusão de pressão, estímulos, ofertas e possibilidades, não acabamos nos atrapalhando e fazendo escolhas que na verdade não correspondem às nossas originais e verdadeiras aspirações.

Sds,

Hugo

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