5. A Era da Transparência

O olhar do outro X a visão do espelho

Em toda rua
Em cada calçada
Na minha mancada
Na vitória sua

Naquela avenida
Na outra esquina
Por trás da cortina
Por toda vida

Nesta semana foi divulgado um vídeo em que o atual candidato líder das pesquisas de opinião à prefeitura de São Paulo, apalpava uma mulata no carnaval, com a voz e a postura de quem estava completamente bêbado, há mais de 20 anos atrás, nos tempos em que era repórter.

Outro dia a jovem atriz americana mais cultuada do momento foi flagrada por fotos de um paparazzo aos beijos com o diretor do filme em que estava atuando, traindo seu namorado, o jovem ator americano mais cultuado do momento.

Há semanas, no trabalho, os colegas mais antenados com tecnologia brincavam com o Google Street View, novo recurso do Google que além de mapas e fotos de satélite, permite percorrer ruas reais virtualmente, como se lá se estivesse. A nitidez é tamanha, que ao percorrer virtualmente as ruas do prédio onde trabalhamos, conseguimos identificar, sem sombra de dúvidas, três motoristas da nossa equipe sentados no saguão do prédio – mesmo com seus rostos desfocados pelo aplicativo, o semblante, a cor da pele, o cabelo, a altura do corpo denunciaram quem era quem entre aqueles sujeitos sentados.

Em todos os últimos escândalos de corrupção, vimos vídeos dos atos criminosos acontecendo escancaradamente.

Há radares de velocidade e instrumentos com foto-sensores nas ruas e avenidas que inviabilizam por parte do infrator de trânsito, qualquer argumentação diante da evidência da transgressão.

Cada vez mais podemos tirar fotos e publicá-las, em tempo real, em redes sociais, blogs, sites.

O foco das lentes
Marcação cerrada
Nas nossas mancadas
Implacavelmente

Paparazzo, radar
Foto, flagrante
Babá ambulante
Espião celular

Ou seja I: cada vez mais está mais difícil negar fatos e idas a lugares, pois a facilidade da geração de provas claras e inequívocas anda impressionante.

Ou seja II: cada vez mais está mais difícil mentir, esconder, omitir.

Pergunto-me qual o grande efeito que essa “vigilância social” pode provocar:

a)     seremos cada vez mais corretos?

b)     seremos cada vez menos hipócritas?

c)     As duas alternativas anteriores?

Aposto na letra “c”.

De certa maneira, a vigilância constante de câmeras em geral nos levará a uma correção maior dos nossos atos, pelo medo de sermos pegos em flagrante, nas mínimas atitudes. O constante risco de termos nossas ações divulgadas e julgadas nos tornará mais rigorosos e cuidadosos em cada passo que damos.

Por outro lado, a inevitável e cada vez maior exposição das condutas que explicitam nossa mais pura natureza humana, poderá nos deixar menos hipócritas. Com nossa sujeira sendo varrida pra fora do tapete, poderemos ser mais condescendentes com a sujeira dos outros.

De perna curta
Sofre a mentira
Alvo na mira
A trapaça surta

Crise da hipocrisia
Fraquezas expostas
A franqueza posta
O outro vigia

Corre-se o risco, é claro de vivermos num mundinho chato mais “politicamente correto” do que correto em si. Isso até já acontece, em parte.

Mas acredito que própria sociedade saberá distinguir que condutas deverão ser reprovadas e aquelas cuja hipocrisia deverá dar lugar a uma maior conivência.

Por exemplo:

Os vídeos que expõem policiais agredindo inocentes ou aqueles que mostram babás espancando idosos, crianças ou enfermos devem ter feito muitos policiais e muitas babás inclinadas a terem conduta semelhante, evitarem tal atitude pelo temor de serem pegos no ato em um vídeo ou foto.

Já o vídeo em que o candidato a prefeito, à época repórter, apalpa embriagadamente a dançarina no carnaval, não parece ser nada demais; sua reprovação soa como uma monitoração moralista hipócrita. Acho que tendemos a ser mais condescendentes com condutas nada mais que humanas.

Aprofundando um pouco nesse contexto, surge a reflexão:

Até que ponto precisamos da vigilância de terceiros para sermos mais rigorosos com a correção dos nossos atos?

A vigilância da nossa consciência não é suficiente para nossa total correção?

O olhar do outro é mais forte do que o olhar no espelho?

Talvez a reflexão valha tanto para os menores atos, quanto para as mais profundas questões. Mas a ideia aqui é mais perguntar do que responder.

Todos no tribunal
São juízes e réus
A queda do véu
Ascensão do real

Era da transparência
O olho que tudo vê
Faz o papel que
Era da consciência

Sds,

Hugo

PS: Um dia desses, já deve fazer uns três anos, vinha eu subindo a escada do prédio onde trabalhava, após o almoço, comendo um picolé (a subida pela escada serve tanto pela privacidade para comer a sobremesa, quanto pela ilusão de gastar parte das calorias ingeridas). O picolé era daqueles em que o recheio é envolvido por uma capinha de chocolate dura. Pois bem, no decorrer do percurso, eis que um pedacinho da capinha de chocolate se desprende e cai no chão. Era um pedaço mínimo equivalente ao tamanho da unha do meu polegar. Eu que me considero rigoroso com questão de limpeza – nada nunca saiu pela janela de meu carro ou das minhas mãos para o chão – nesse dia, especificamente, tive a intenção de apenas chutar o fragmento do picolé para o cantinho do degrau. Em fração de segundos, antes de executar o movimento, me veio a dúvida instantânea: naquela escada haviam câmeras de segurança? Sem querer olhar em volta para conferir, rapidamente abaixei e peguei o pedacinho de chocolate para levá-lo à lixeira mais próxima. Pois é, no exemplo citado, a potencial fiscalização de terceiros foi mais forte do que olhar vigilante do espelho.

Comentários

  1. É Hugo... de toda reflexão, fica mais forte pra mim a questão de que, nessa auto regulagem que nos impomos pela observação de outros, esqueçamos nossa identidade, nossa natureza (que não é sempre correta e fofa, pode apostar).
    Boa reflexão ;-) Já assistiu Person of Interest? Proporciona essa reflexão. Veja!

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    Respostas
    1. Nunca assisti, mas vou aproveitar a dica! Obrigado pela visita, toda quarta tem texto novo por aqui. Abraço, Hugo

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